Leitura de 2013...
"Por que dar importância a uma troca de palavras que acontece devido à mais absurda das coincidências?"
"Pérsio diria que o que chamamos absurdo é a nossa ignorância."
A sensação é claustrofóbica, ainda assim, mais prazerosa do que estar por aí nesse mundo que dizem ser "real". Estar no Malcolm (palavra que me lembra manicômio...) sem ter sido premiada me deixa tão em dúvida quanto qualquer um que tenha embarcado nessa viagem sem saber pra onde vai. E tudo que tem dentro dele me parece mais real do que o meu dia a dia.
É muito real parar e observar a imagem que você tem de um grupo de pessoas, e ficar imaginando o que esse grupo de pessoas pensa de você, e pensar que eles fazem o mesmo, enquanto que aqui no mundo real, todos fingem desprezar uns aos outros. López, Claudia, Paula, Raul, Pérsio, Lúcio e Nora conseguem transcender a ficção de Cortázar porque no Malcolm são eles as pessoas colocadas em evidência, enquanto que na vida real acho que seriam exatamente o tipo de pessoas que mais usam máscaras.
Intelectuais, rebeldes, perversos e por algum motivo os únicos que acham que desconfiam de que há algo por trás de tudo o que lhes acontece no navio. Mas me parece que não há nada, se não, paranoia. Pode ser apenas um jogo para mostrar quantos lados existem numa mesma situação. Sim, um jogo de perspectivas mais bem feito do que no filme "O ano passado em Mariembad", disfarçado de jogo de xadrez.
A dúvida me parece ser o maior aliado da perspectiva, quanto mais dúvida, mais mil maneiras de se ver uma mesma situação. Temos de um lado o ato de não desconfiar de nada e apenas se divertir na viagem, levar uma vidinha comum sem perguntas e cheias de respostas. Criticando, reprimindo quem se movimenta de forma diferente. Por outro, desconfio de nós, de cada palavra que o capitão disse, de cada passo dado, do porquê viemos parar aqui. Vamos arrombar as portas e ver o que tem do outro lado. Sempre 3 portas, uma abre com facilidade, mas não leva a lugar nenhum, se não do lado oposto ao que estamos! Nos achamos fodões, mas diante da dúvida queremos respostas e vamos correndo atrás delas, até com armas! O absurdo disso tudo está incomodando um bocado! Nada de respostas, meras suposições.
E eu leitora, arregalo os olhos e fico perplexa preocupada com o seguinte: se eu estivesse sido premiada e estivesse lá com eles. (Pretensão minha achar que poderia estar lá dentro). Em qual grupo estaria? Seria que peça num jogo de xadrez? E por que desejar ser uma peça de xadrez? Previsível e banal, iria procurar os finlandeses e tirar foto deles. Ou ia ficar preocupada com o fato de o grupo de López ser tão fechado, e estaria doida pra me aproximar deles.
Um detalhe me chamou atenção: a reumática que tomou até água de cogumelo hepático. Eu já vi essa porra desse cogumelo e provei dessa água. É pavoroso, lembra uma água-viva dentro do mar, coisa de que tenho horror! Mas por trás disso está a dor que não passa por nada. Somos todos reumáticos.
Perceber algo de estranho é bom, mas pode nos tornar pessoas insuportáveis. Mas os apáticos também não são insuportáveis? De qualquer maneira todos estamos fazendo algum movimento. Embora estejamos apenas no primeiro dia de viagem. Ainda no primeiro dia de viagem! Que absurdo! 166 páginas e só estamos no primeiro dia. Sim, é por isso que abandonei todos os outros livros e minha estante de livros virou mero enfeite.
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